House Couture

House Couture | Alta Arquitetura de Interiores - Vestindo Espaços sob Medidas

Nenhum de nós pensava em viver.
Dávamo-nos as mãos e os nossos olhos perguntavam-se o que seria o ser sensual e o querer realizar em carne a ilusão do amor...

O nosso sonho de viver ia adiante de nós, alado, e nós tínhamos para ele um sorriso igual e alheio, combinado nas almas sem nos olharmos, sem sabermos um do outro mais do que a presença apoiada um braço contra atenção entregue do outro braço que o sentia.

A nossa vida não tinha dentro. Éramos fora e outros. Desconhecíamo-nos como se houvéssemos aparecido Às nossas almas depois de uma viagem através dos sonhos... Ali vivemos um tempo que não sabia decorrer, um espaço para que não havia pensar em poder-se medi-lo. Um decorrer fora do tempo, uma extensão que desconhecia hábitos da realidade no espaço... que horas, ó companheira inútil do meu tédio, que horas de desassossego feliz se fingiram ali... Horas de cinza de espírito, dias de saudade espacial, séculos interiores de paisagem externa...

Dormimos ali acordados dias, contentes de não ser nada, de não ter desejos nem esperanças, de nos termos esquecido da cor dos amores e do sabor dos ódios. Julgavamo-nos imortais...

Ali vivemos horas cheias de um outro sentimo-las, horas de uma imperfeição vazia e tão perfeitas por isso, tão diagonais à certeza retângula da vida... Desenganemo-nos, meu amor , da vida e seus modos. Fujamos a sermos nós... Não tiremos do dedo o anel mágico que chama, mexendo-se-lhe, pelas fadas do silêncio e pelos elfos da sombra e pelos gnomos do esquecimento...

Loucura de sonho naquele silencio alheio!...

A nossa vida era toda a vida... O nosso amor era o perfume do amor... Vivíamos horas impossíveis, cheias de sermos nós... E isto porque sabíamos, como toda a carne da nossa carne, que não éramos realidade...

Éramos impessoais, ocos de nós, outra coisa qualquer... Éramos aquela paisagem esfumaçada em consciência própria... E assim como ela era duas – de uma realidade que era, e ilusão- assim éramos nós obscuramente dois, nenhum de nós sabendo bem se o outro não era ele-próprio, se o incerto outro vivera...

E assim nós morremos a nossa vida, tão atentos separadamente a morrê-la que não reparamos que éramos um só, que cada um de nós era a ilusão do outro, e cada um, dentro de si, o mero eco do seu próprio ser...


Fragmentos " NA FLORESTA DO ALHEAMENTO"

(Fernando Pessoa)

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